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Sentimento de Inadequação: quando a gente sente que não faz parte

 

Muitas vezes na vida podemos nos sentir inadequados. Todos os dias pode haver um motivo pelo qual nos frustramos, pensando que fomos mal interpretados e incompreendidos por alguém. Vamos combinar que dar bolas fora e pagar micos faz parte de nossa vida em sociedade? Este sentimento é decorrente da comparação que, como diz Torres (2011) é indevida, porém inevitável. Torres (2011) explica que o próprio termo “inadequado” sugere que haveria uma forma “adequada” correta e melhor, enquanto que o inadequado seria errado, ruim, doente. O mal estar subjacente ao sentimento de inadequação seria decorrente da incongruência do que se pensa e acredita com os resultados observados. A pessoa sente-se incomodada, passando a questionar se suas convicções estão mesmo corretas ou se ela deveria mudar.

 

O Sentimento de Inadequação (SI) foi definido por Torres (2008, p.14) como “o indício de um modo de existência no qual se constata um estado de diferença ou peculiaridade, independentemente das reações assumidas a partir dessa constatação”. O SI pode vir a ser problema quando ele é constante, causando sofrimento ao longo dos anos. Esse quadro crônico pode levar a pessoa a manifestar um sem-número de fenômenos como estresse, depressão, baixa autoestima, perda da autoconfiança, transtornos de ansiedade e até o suicídio.

 

Os motivos pelos quais as pessoas podem se sentir inadequadas são infinitos, mas são basicamente de dois tipos: os “de dentro” e os “de fora”. Os “de fora” todo mundo vê, como, por exemplo, aparência física, estatura, traços fisionômicos. Crianças e adolescentes podem ser considerados inadequados por motivos como esses e mais tantos outros como etnia, sotaque, corte do cabelo, estilo de roupas, o formato da aba do boné etc. Qualquer característica inadequada para um grupo pode ser motivo de bullying, exclusão, violência. Este sentimento de inadequação surge no sujeito que se sente inadequado perante os padrões de um grupo em que está ou deseja estar inserido.

 

Os motivos “de dentro”, por sua vez, ninguém vê, mas causam igualmente SI. Esse tipo decorre do julgamento do sujeito sobre o que ele mesmo considera certo e errado para a própria vida, e não do que os outros pensam. Por exemplo: uma menina que se torna mãe aos 15 anos pode se sentir inadequada porque ela não está correspondendo às suas próprias expectativas. Um idoso que precisa usar um andador pode se sentir inadequado porque ele queria estar andando sozinho. Mesmo que todo mundo diga para à menina e ao idoso que a situação deles não tem nenhum problema, que não é o fim do mundo, além de não ser nada empático, isso não reduz o SI e ainda pode piorar a situação, pois eles podem interpretar que não é adequado se sentir inadequado.

 

O Psicólogo César Borella (2017) sugere que o Sentimento de Inadequação gera o Sentimento de Inferioridade. E, para nos livrarmos deste, temos que ter um olhar atento e honesto para nós mesmos, objetivando diminuir as barreiras erguidas pelo Sentimento de Inferioridade, tais como a autopiedade, a vitimização - que é atribuir às diferenças ou às outras pessoas a responsabilidade por nossos resultados - agressividade, falta de metas e objetivos na vida, autocrítica exacerbada e acomodação.

 

Em casos mais severos, indivíduos que se consideram inadequados podem passar a evitar a interação social com medo de serem ridicularizados, rejeitados ou humilhados. Segundo Meldau (2017), esse comportamento pode se tornar constante e levar à Síndrome da Ansiedade Esquiva, também conhecida como Transtorno da Ansiedade Esquiva ou ainda Transtorno da Personalidade Ansiosa. Trata-se de um transtorno de personalidade em que o sujeito passa a evitar contatos sociais e qualquer situação que ele imagina que possa lhe causar embaraço ou ansiedade. As manifestações clínicas desta síndrome podem envolver sensibilidade exacerbada a críticas e rejeição, isolamento social voluntário, timidez ou ansiedade extrema em situações que envolvem interação social, evitação de contato físico, podendo este ser associado a estímulo desagradável ou doloroso, extrema baixa autoestima, desconfiança constante das outras pessoas, distanciamento emocional, autocrítica, uso da fantasia para explicar a realidade.

 

A psicologia considera como emoções autênticas naturais do ser humano a alegria, a tristeza, o medo e a raiva (LOPES, 2017). Elas não são exclusivas dos seres humanos e podem ser observadas em animais como cães, gatos e cavalos. As emoções são benéficas porque nos ajudam a tomar decisões, a nos proteger e a superar desafios da vida. Contudo, há emoções derivadas destas que não são funcionais, posto que resultam em mal estar. No SI estão envolvidas as emoções de inveja, ciúme, vergonha e culpa, que são derivadas do medo, do temor de não sermos aceitos por nossas expressões no mundo. Na inveja e no ciúme, olhamos o outro com crítica, enquanto que na vergonha e na culpa, o alvo da crítica somos nós. A pessoa que tem SI pode ter ciúme e inveja das pessoas consideradas por ela melhores, e ter vergonha e culpa por ser como é e não conseguir ser de outra forma.

 

 

Aplainamento da Subjetividade e Aplainamento da Objetividade

Diante do sentimento de inadequação, seja ele causado pelos julgamentos vindos dos outros, de nós mesmos ou de ambas as partes, nós adotamos posturas que oscilam entre tentar nos consertar e tentar consertar o mundo. Tentamos nos consertar quando nos julgamos culpados, imperfeitos, errados, maus, então nós é que temos que mudar a qualquer custo, crendo que assim seremos aceitos e amados pelo mundo. Tentamos consertar o mundo quando julgamos que os outros, a sociedade, os familiares, os colegas é que são uns ignorantes, limitados, errados, maus, que não nos entendem e por isso não conseguem nos aceitar e amar como somos. Estas tentativas de Aplainamento da Subjetividade (AS) definindo o movimento de se consertar, ou de Aplainamento da Objetividade (AO), que é o movimento de consertar o mundo (TORRES, 2008) são, no fundo, respectivamente, manifestações de violência contra nós e contra os demais.

 

 

Empatia consigo próprio

Empatia pode ser explicada como reconhecer que se está fazendo o melhor que se pode com os recursos que se tem no momento e honrar esse lugar de onde o ser se manifesta no mundo. Rosenberg (2006) propõe que, para desenvolvermos uma atitude não-violenta conosco mesmos e com os outros, temos que considerar quatro etapas da comunicação: 1.Observar o que está acontecendo dentro de si de fato, sem julgamento e sem juízo de valores; 2.Identificar, nomear o que se está sentindo em relação ao que se observa; 3.Tomar consciência das reais necessidades que lhe fizeram sentir daquela maneira; 4.Declarar e pedir o que deseja ou necessita de forma concreta. É preciso ser empático consigo mesmo e acolher suas necessidades com continência, para que o autocuidado não deixe espaço para nenhuma forma de autoagressão.

 

 

Senso de Inadequação (SsI)

Uma terceira postura diante do SI seria o desenvolvimento do Senso de Inadequação (SsI), termo também cunhado por Torres (2008). O conceito do SsI sugere que o indivíduo acolha empaticamente suas diferenças em relação ao meio em que se encontra, abrindo mão de suas expectativas de conformidade com os referenciais alheios e também com os seus próprios. Seria um reconhecimento de ser um indivíduo único e de abdicar de funcionar na polaridade do julgamento adequado/inadequado, bem/mal, certo/errado, consciente de que poderá haver desafios, obstáculos, angústias, como em toda situação na vida. A vantagem é que o indivíduo estaria coerente com os seus valores, o que lhe poderia finalmente atribuir leveza, humor e criatividade nas relações, em vez da angústia vivenciada quando se acreditava estar inadequado.

 

 

 

 

 

Referências

BORELLA, C. A. S. Livre-se dos sentimentos de inferioridade. Disponível em <http://www.psicologosp.com/2013/03/livre-se-dos-sentimentos-de.html>  Acesso em 29 mar 2017.

 

LOPES, R. B. As Emoções. Disponível em < https://psicologado.com/psicologia-geral/introducao/as-emocoes> Acesso em 30 mar 2017.

 

MELDAU, D. C. Síndrome da Ansiedade Esquiva. Disponível em <http://www.infoescola.com/doencas/sindrome-da-ansiedade-esquiva/> Acesso em 29 mar 2017.

 

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta. Técnicas para aprimorar

relacionamentos pessoais e profissionais. 3. ed. São Paulo: Ágora, 2006.

 

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação: Estudo Fenomenológico-Existencial. 2008. 153 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas-SP.

 

TORRES, A. R. R. Sentimento de Inadequação, prática psicológica e contemporaneidade. In: ANGERAMI, V. A. (org.). Psicoterapia e Brasilidade. São Paulo, Cortez, 2011.